segunda-feira, 6 de junho de 2011

Stiglitz: a austeridade condena a Europa e os EUA à estagnação

O Nobel da Economia Joseph Stiglitz considera que os EUA e a Europa estão a tomar más decisões para tentar superar a crise e assegura que as políticas de austeridade não são a solução.

Artigo
5 Junho, 2011 - 17:00

O Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, já em Fevereiro deste ano defendia que devido às medidas de austeridade as economias europeias iriam ser afectadas “pelos cortes públicos e pela subida das taxas de juro”. Segundo noticia a Europapress.es, esta sexta-feira, durante a sua intervenção na reunião anual do Círculo de Economia em Sitges, Stiglitz alertou que "a estratégia de austeridade é uma estratégia que vai condenar os EUA e a Europa à estagnação, ao baixo crescimento e, por sua vez, o défice não poderá melhorar muito".
O economista admitiu que é compreensível a adopção de medidas de austeridade, devido ao tamanho dos défices públicos, mas argumentou que a austeridade dos governos não tem ajudado, levando a uma grande baixa no consumo interno, enfraquecendo o investimento e as exportações.
Stiglitz critica acção dos bancos centrais
Stiglitz teceu duras críticas aos bancos centrais, dizendo que "não são a fonte da sabedoria” e têm antes “fortes prioridades políticas". Uma situação mais presente na Europa do que nos EUA, sustentou.
Neste sentido, o economista criticou o resgate da Grécia: "Não se trata de um resgate, mas de uma protecção dos bancos europeus que têm emprestado muito, tornando-se credores desses países, e agora vêem-se ameaçados com uma possível reestruturação."
"A sequência dos resgates, o que faz é agravar o problema", advertiu, argumentando que desta forma transfere-se a dívida do sector privado para o Governo, que em caso de reestruturação deve responder.
Stiglitz afirmou que os EUA, por exemplo, deveriam levar a cabo reformas para reestruturar os impostos e os programas de despesas, o que poderia levar a um maior crescimento, uma maior procura associada a um défice menor.
Já no caso da União Europeia, Stiglitz apontou que a solução seria criar um fundo de solidariedade, mas sublinhou que a melhor opção é uma reestruturação bancária.

Fonte: Esquerda.net

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Duas lendas da ortodoxolândia que nos levam à pobreza

Duas lendas da ortodoxolândia que nos levam à pobreza


Pretendo aqui destacar dois mitos da Economia ortodoxa que sobrevivem nas mentes de políticos e economistas: a redução dos salários como solução para o problema do desemprego e a redução da despesa como solução para o equilíbrio das contas.


Citado de: (Esquerda.net)
opiniao
2 Junho, 2011 - 00:10
Por Ricardo Coelho

 
Pretendo aqui destacar dois mitos da Economia ortodoxa que sobrevivem nas mentes de políticos e economistas: a redução dos salários como solução para o problema do desemprego e a redução da despesa como solução para o equilíbrio das contas.

A economia ortodoxa, influenciada sobretudo pela escola neo-clássica, vive num estado de negação permanente. Mesmo quando a realidade desmente categoricamente as suas teorias, os seus seguidores fazem questão de salientar que deve haver algo de errado com a realidade. Assim se compreende como a emergência de uma crise financeira cuja ocorrência era impossível de prever usando os modelos ortodoxos não tenha mudado nada no ensino da Economia.

 

Pretendo aqui destacar dois mitos da Economia ortodoxa que sobrevivem nas mentes de políticos e economistas: a redução dos salários como solução para o problema do desemprego e a redução da despesa como solução para o equilíbrio das contas. Em ambos os casos, lidamos com teorias que são intuitivamente correctas (o que explica, em parte, a sua popularidade) mas que não têm qualquer ligação com a realidade.

 
No primeiro caso, temos a ideia de que existe um mercado de trabalho, com uma oferta e procura, no qual o trabalho é comercializado como qualquer outra mercadoria. Se o mercado não for regulado e existir concorrência perfeita, então a procura será igual à oferta e ninguém estará involuntariamente no desemprego. Mas se um sindicato consegue a malvadez de impor um salário mínimo acima do salário de equilíbrio, então a oferta será superior à procura e existirá desemprego involuntário. Os sindicatos são portanto organizações corporativas, que garantem melhores condições para os que trabalham à custa do agravamento das condições de vida para os que estão desempregados.

 

Partindo desta teoria, economistas como Vítor Bento, conselheiro de Cavaco Silva ou Vítor Constâncio, Vice-Presidente do Banco Central Europeu defendem a baixa salarial como meio de gerar mais emprego (não sendo claro se os seus salários generosos também seriam afectados por essa medida). Acabando com “imperfeições” que não permitem o mercado funcionar, com o salário mínimo e com o subsídio de desemprego, resolve-se o problema do desemprego. Mas fora da ortodoxolândia, onde estes economistas vivem, a história é muito diferente.

 
No mundo real, não existe um mercado de trabalho mas antes um conjunto de arranjos institucionais que permitem o encontro de quem procura e quem oferece emprego. O economista Vítor Bento não compete por trabalho com quem não tem as suas qualificações e o Banco Central Europeu certamente recorre mais frequentemente à promoção interna que ao recrutamento externo quando tem de escolher um novo quadro. Do encontro entre quem oferece e quem procura emprego resulta um contrato de trabalho, cujas características serão mediadas por factores externos como a legislação laboral ou a relação de forças entre trabalhadores e empregadores. As condições de trabalho que resultam deste processo, por sua vez, serão um factor determinante em variáveis como o consumo, a poupança e o investimento. No mundo real, tudo está ligado com tudo.

 

Assim se compreende como fora da ortodoxolândia, os salários baixos promovem o desemprego e não o emprego. Um artigo sobre a relação entre salários e emprego, do economista Engelbert Stockhammer1, apresenta o gráfico abaixo apresentado, no qual se pode ver a evolução dos salários reais e do desemprego na OCDE durante uma década (1995-2004). Fosse a economia dos manuais correcta e teríamos pelo menos quase todos os países nos quadrantes superior direito e inferior esquerdo. Ou seja, teríamos o desemprego a aumentar onde os salários reais estão a aumentar e vice-versa.

 
A análise cross-section apresentada é complementada com uma análise temporal, na qual se mostra como não existe qualquer relação entre a variação dos salários e o emprego na OCDE no período de 1960 a 2006. Como se pode ver no gráfico seguinte, a tendência de baixa salarial desde 1975 tem sido acompanhada por uma tendência para o aumento do desemprego.

 
Stockhammer explica a divergência entre a teoria e a realidade pelo facto de o emprego nos países da OCDE ser sobretudo guiado pela procura. Se há melhores salários, as pessoas podem adquirir mais bens e serviços e com isso alimentar uma economia que emprega mais gente. Se, pelo contrário, os salários descem, o consumo retrai-se e o desemprego aumenta. Ou seja, o aumento da apropriação da mais-valia produzida pelos trabalhadores apenas beneficia os empresários.

 

O segundo mito pode ser desmontado com a mesma facilidade. A estória contada na ortodoxolândia é tão básica quanto o raciocínio de Medina Carreira: se queremos reduzir o défice orçamental, temos de reduzir a despesa pública. Tudo se passa como numa família, que ficará com mais dinheiro ao fim do mês se gastar menos. Este é possivelmente o mais perigoso mito da actualidade.

 
Defender que uma economia nacional tem um nível de complexidade semelhante ao de uma economia familiar é tão absurdo quanto comparar a dificuldade de aprender a teoria da relatividade à dificuldade de memorizar a tabuada. Uma política eficaz para uma economia saudável tem de ser fundada em teorias sólidas e em dados concretos, não em “bitaites” de treinadores de bancada. Vejamos então o que nos ensina a experiência com a política económica.

 
O gráfico abaixo representado foi retirado de um estudo da economista Victoria Chick2, que pretende ilustrar as previsíveis consequências negativas das medidas de austeridade impostas pelo governo conservador britânico. O gráfico mostra a relação entre a variação na dívida pública e a variação na despesa pública em vários períodos de tempo. A ortodoxia exigiria que os pontos do gráfico estivessem todos no quadrante inferior esquerdo, onde a dívida desce ao mesmo tempo que a despesa desce.

 
O que se vê claramente neste gráfico é que, se deixarmos de lado os períodos das duas guerras mundiais, durante os quais a despesa pública foi extremamente elevada devido aos gastos com armamento, a tendência é para a dívida pública aumentar quando a despesa pública diminui e vice-versa. Nada de novo para quem vê as notícias, já que a dívida pública da Grécia e da Irlanda disparou depois da imposição de planos de austeridade pela “troika”. Fora da ortodoxolândia, a divisão essencial não se encontra entre gastar muito ou pouco mas entre gastar bem ou mal.

 
Obviamente que esbanjar dinheiro em armamento ou outros investimentos não produtivos conduzirá um país a um aumento da dívida pública, pelo que é essencial garantir o rigor nas contas públicas. Mas gastar dinheiro em investimentos produtivos, como infra-estruturas de transportes ou de comunicações ou investigação científica e tecnológica, tem um efeito multiplicador na economia, na medida em que permite expandir a capacidade produtiva. Com uma economia mais dinâmica, temos mais emprego e mais riqueza a ser produzida, pelo que a receita fiscal será mais elevada e o défice orçamental será menor.

 
Também as transferências sociais têm um importante efeito multiplicador. Dado que a propensão marginal do consumo é superior nos mais pobres que nos mais ricos, transferir riqueza dos segundos para os primeiros resulta numa expansão do consumo. Por outras palavras, um euro a mais no bolso de um pobre contribui mais para a dinamização do consumo que um euro a mais no bolso de um rico. Um sistema de Segurança Social não tem, portanto, apenas a função de reduzir as desigualdades mas também permite ter uma economia mais forte.

 
Infelizmente, é muito difícil aceder a estudos como estes através da comunicação social, que frequentemente promove a comentadores de Economia indivíduos que proferem baboseiras como se fossem verdades absolutas e que na sua maioria não têm qualquer currículum científico. Daí que uma das principais tarefas da esquerda seja hoje a de furar o muro da ortodoxia, abrindo a Economia ao mundo real e às pessoas que nele vivem. Fica aqui um modesto contributo para essa luta.

Para visualizar gráficos e trabalhos originais:
http://gesd.free.fr/stockham.pdf
1 Stockhammer, E. (2007) “Wage Moderation Does Not Work: Unemployment in Europe”, Review of Radical Political Economics, 39(3): 391-397. Disponível em http://gesd.free.fr/stockham.pdf.

 
2 Chick, V. and Pettifor, A. (2010) “Fiscal Consolidation: Lessons from a Century of Macro Economics”. Disponível em http://www.debtonation.org/wp-content/uploads/2010/06/Fiscal-Consolidation1.pdf


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Como o BCE se converteu no depósito de todo o lixo bancário europeu

Como o BCE se converteu no depósito de todo o lixo bancário europeu

O Banco Central Europeu encontra-se a viver a sua própria grande crise e a possível reestruturação da dívida grega põe-no à beira do colapso. Por Marco Antonio Moreno

Artigo
30 Maio, 2011 - 14:00

O guardião da moeda única comprou em segredo milhares de milhões de euros de activos de risco - Foto de Jean-Claude Trichet, presidente do BCE O guardião da moeda única comprou em segredo milhares de milhões de euros de activos de risco como ajuda colateral para escorar os bancos privados dos países que lutaram para manter à tona a precariedade das suas finanças. O ponto crucial é a queda abrupta e contínua dos activos imobiliários, que sofrem descidas que chegam até 60%. Uma descida que continuará, dado o estado crítico destas economias que não conseguem dar sinais de recuperação, devido aos erros gritantes cometidos no passado.

 
A crise imobiliária desencadeada pela privatização massiva do solo, tem convertido muitos lugares do mundo, da Califórnia a Dublin, em verdadeiras cidades fantasma, com construções por acabar que ficaram paralisadas após a eclosão da crise, com a deterioração de materiais e a desvalorização do solo. Estas cidades fantasma pesam nos balanços bancários e o seu volume é tão grande que não é possível assumir a perda e continuar em frente. Mais ainda quando a economia global se encontra num estado famélico, com um desemprego lacerante que impossibilita qualquer ideia de recuperação.



Ao contrário dos Estados Unidos, onde a crise imobiliária se liquefaz com um dólar que serve de divisa mundial ao resto do mundo para aceder ao comércio internacional, o caso europeu mostra toda a crueza da crise porque o euro nunca lutou para impor-se como divisa internacional. Desta forma todas as perdas ficam a nível europeu sem poder dissolvê-las no mercado mundial e todos os empréstimos incobráveis terminam no balanço do Banco Central Europeu. Este banco torna-se assim depositário de todos os números vermelhos, convertido no verdadeiro “banco mau” (ou depósito de lixo) que devia ter sido criado após a crise.



Recordemos que no início da crise se falou da criação de um “banco mau” depositário de todos os activos tóxicos, mas esta ideia naufragou pela arrogância de quem sustentava que a crise era um fenómeno transitório. Desta forma o Banco Central Europeu tornou-se depositário de todos os riscos e números vermelhos. Foi assim que os bancos privados descarregaram todos os seus riscos nos bancos centrais e estes distribuíram grandes somas de dinheiro às instituições financeiras para evitar o colapso da banca e repetições de casos como o Lehman Brothers. Desta forma, em troca de activos desvalorizados, ou hipotecas lixo, a banca recebeu dinheiro fresco para continuar a apostar no mercado e distribuir apetitosos dividendos aos seus accionistas. Finalmente, e através dos bancos centrais, todos estes riscos, que são de vários milhares de milhões de euros, foram transferidos ao Banco Central Europeu, que acumula na sua folha de balanço perdas que ameaçam afundar toda a Europa.



Os riscos não assumidos pela banca privada foram parar ao balanço do BCE e é por isso que uma reestruturação da dívida grega ou, pior, uma falta de pagamento, põem em alerta o BCE face a uma possível bancarrota. O BCE comprou títulos do Governo grego por 47 mil milhões de euros e desde Abril gastou cerca de 90.000 milhões de euros no refinanciamento dos bancos gregos. Para toda a Europa, o BCE acumulava no começo do ano mais de 480.000 milhões de euros nestes activos duvidosos e até ao momento nenhum perito é capaz de dizer como o BCE pode desfazer-se destes valores sem assestar um golpe fatal no sistema bancário europeu. O BCE está numa situação sem saída e agora converteu-se num gigantesco banco mau ou, por outras palavras, num depósito de todo o lixo bancário europeu.



O ex-presidente do Bundesbank, Axel Weber, criticou na altura o programa do BCE de comprar títulos de Estados e de bancos falidos e esse foi o motivo da sua renúncia que o deixou fora do caminho para suceder a Jean Claude Trichet. O tempo está a dar razão a Weber de que estes bancos deviam ser condenados à falência sem misericórdia e e eu acrescentaria que os seus executivos também deveriam ser condenados à cadeia. Enquanto não chegam ao cárcere os banqueiros culpados do grande descalabro financeiro que vive a Europa, os Estados Unidos e o mundo inteiro, continuaremos desgraçadamente a proteger e legitimar as fraudes das finanças modernas, plenamente permitidas.

Artigo do economista Marco Antonio Moreno, publicado em elblogsalmon.com. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net






sábado, 30 de abril de 2011

Banir a Troika pela Democracia - Por uma outra Sociedade

Uma grande massa de políticos portugueses e outros intervenientes querem  vender-nos a ideia que a "ajuda" do FMI e do FEEF é inevitável, e fundamental para o país.
As receitas do FMI são por demais conhecidas. Num país com níveis de pobreza brutais, e que serão certamente alavancados pelos cortes em transferências sociais, pois, muita pobreza é hoje em dia mitigada pelo alargamento das transferências sociais ocorrida com a implementação do Estado Social moderno do pós 25 de Abril, criará brechas sociais e enterrará definitivamente Portugal para anos de empobrecimento, e dependência externa crescente.
Surge por isso, a necessidade de estabelecermos ideias e caminhos, quer económicos e sociais, mas necessariamente também políticos.
Temos que pensar Portugal sem dogmas da errada teoria financeira, com uma abertura de espírito, claro está com realismo, mas também a utopia, aquela utopia que nos faz acreditar e ter esperança de um país melhor.
Em termos políticos, desde logo nunca nenhum governo se deveria comprometer com a Troika na assinatura de qualquer acordo de empréstimo antes as eleições. A Democracia deverá funcionar, deverão ser os portugueses a decidir se querem um governo que apoie o empréstimo agiota de 5% ou mais de juro do FMI, que estrangulará o potencial de crescimento do país, aumentará o desemprego, a precariedade, a redução dos cuidados de saúde pública, como se constata desde já em Braga, com a entrega do Hospital de Braga ao grupo Mello, em que são retiradas especialidades não rentáveis, colocação em tribunal pelo Hospital de S. João do Porto, por recusa de prestação de apoio médico pelo Hospital de Braga, que encaminha os utentes crónicos do SNS para o Porto, entre outras, como duas multas que já levou pela Inspecção Geral de Saúde por diversos incumprimentos.
A redução da qualidade do ensino, com a quebra do esforço social de integração de alunos com maiores dificuldades, entre muitas outras coisas, e que o sistema privado não está, não quer assegurar.

O FMI vem a Portugal para assegurar que os especuladores/credores recebem o seu dinheiro, ao juro contratado pelo mercado especulativo, e em grande parte por endividamento provocado por este.

A outra opção é desenvolver uma política económica e social que vise o crescimento económico do país, com melhor distribuição de riqueza, melhores serviços públicos, contas públicas disciplinadas, em função das necessidades dos portugueses, e não dos especuladores nacionais e internacionais.

Uma política que ponha no centro das atenções as pessoas e não a banca e os banqueiros, que fomente a produção nacional, e incentive a poupança para o investimento produtivo. Que melhor as condições de partida de todos os portugueses, com mais e melhor educação pública, mais estabilidade no emprego e melhores salários, para que a função capital trabalho seja mais equilibrada.

No curto prazo, antes de nos precipitarmos com o FMI, deveríamos exigir o accionamento de uma claúsula dos estatutos do BCE (artigo 21º) que permite um financiamento à tesouraria através de um banco público do país (CGD) para fazer face a necessidades imediatas de tesouraria, a um juro idêntico à taxa de desconto estipulada pelo BCE (1,25%).

Uma auditoria profunda e abrangente às contas públicas portuguesas, em particular à sua dívida. Saber quem deve a quem e como essa dívida foi contraída, é essêncial e um direito que os portugueses têm. Aqui, o Tribunal de Contas teria um papel fundamental, mas um Tribunal de Contas verdadeiramente independente, com um presidente nomeado pelo Conselho Superior de Magistratura.
A auditoria teria capacidade de sinalizar toda a negligência efectuada, pelo menos desde 1995, em particular com as parcerias pública-privadas, forçando a renegociação dos contratos.

Trabalhar com base num orçamento de base ZERO. É a forma mais clara e transparente de percebermos onde estão os estrangulamentos, cortar eficazmente nos chamados consumos intermédios, acabar com transferências para Fundações e algumas das outras das 14.000 entidades que vivem à custa do orçamento de Estado, cuja existência é de duvidosa aparência.

Renegociar e restruturar a dívida pública de forma a pagar menos juros, mas num período mais alargado de tempo, sempre na perspectiva que o cumprimento dos objectivos sociais e crescimento  económico criador de emprego seja sempre a matriz de base de negociação.

Tendo em conta as próximas eleições só há um Partido político capaz de cumprir este desiderato, e mudar para melhor a sociedade portuguesa, dando um grande abanão nas estruturas caducas, deprimentes e decadentes da União Europeia, esse partido é o BLOCO DE ESQUERDA.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Democracia e poder - O embuste das instituições

O que é a Democracia? Ela implica responsabilidade, justiça, verdade, equidade, solidariedade, participação, igualdade, Humanismo, para que todos possam usufruir dela por igual e por inteiro.
 A Democracia nunca se poderá limitar ao mero escrutínio popular em eleições. Cada vez mais as eleições parecem uma espécie de anestesia popular, apenas para continuarmos a pensar que vivemos em Democracia. Mas na verdade vivemos numa "Castocracia" Castas que dominam as instituições políticas, auto-intitulando-se como detentoras do conhecimento socialmente correcto.
Uma série de instituições criadas pelos países ditos democráticos, em particular no pós segunda guerra mundial,  com o aparente objectivo de incrementar, reforçar e proteger a Democracia num mundo em globalização acelerada.
A Organização das Nações Unidas, uma instituição por excelência, um fórum mundial, continua e continuará a ser dominada pelos vencedores da segunda guerra mundial, e mais recentemente países que têm uma nova e importante projecção mundial candidatam-se a reclamar a sua parte do "bolo". E os outros cento e tal países do planeta azul? O que são ? Bastardos ? Onde está a Democracia?
O Banco Central Europeu (BCE) com dirigentes que ninguém elege, que não se justificam perante as autoridades dos países, têm hoje um poder enorme, e um controlo nas nossas vidas e no nosso dia a dia, que por vezes, nos passa completamente ao lado, mas quando invariávelmente entra no nosso bolso, lembra-nos a comunicação social, quem são os maus da fita.
Parlamento Europeu. Sem poderes efectivos, na prática não decide nada, é a casa das recomendações. Não deveria ser assim, pois aqueles Homens e Mulheres foram eleitos efectivamente pelo povo, por isso, onde está a Democracia?
Há volta da podridão do sistema financeiro coexistem outras instituições que se alimentam com desdém e parcimónia das dificuldades dos outros, sempre prontos a atacar a presa mais fácil, os bancos, o FMI, as agências de rating, que, quais vampiros procuram incessantemente uma nova presa. Em 2007/2008  alimentaram-se dos lucros chorudos da ilusão do subprime, encheram a barriga com avultadas comissões, depois de terem sugado a presa até à morte, partiram à procura de outras fragilidades. Encontraram-nas na Grécia, na Islândia, na Irlanda, em Espanha, e claro Portugal, onde agora tentam sugar outra vez, até matarem estas novas presas. A Islândia luta galhardamente para não ter esse fim, e pelos vistos com sucesso.
Onde está a Democracia?
Poderá a vontade popular mudar este estado de coisas? Eu digo que no curto prazo, infelizmente NÃO ! Porquê? Porque somos dominados por interesses que não se compadecem com questões de Justiça, Liberdade, Humanismo, Equidade, Igualdade.
Só uma grande mobilização popular a nível europeu, e até mundial, poderá alterar este estado de coisas, colocar o sistema financeiro no lugar a que pertence, ao serviço das pessoas, e das empresas, e não ao contrário, servindo-se deles.
Entretanto, vamos continuando com paliativos, com a hipócrisia cada vez mais confrangedora da classe política dominante.
Ups! Esqueci-me da NATO.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mais mentiras - O Ajuste Directo

 Recentemente foi aprovado o Decreto Lei 40/2011 de 22 de Março (Diário da República, 1.ª série — N.º 57 — 22 de Março de 2011), que estipula novos limites para diversos detentores de cargos públicos para o uso da figura de ajuste directo na adjudicação de obras públicas.
A figura do ajuste directo permite aos detentores de cargos públicos adjudicar obras sem a abertura de Concurso Público. Esta formula permite agilizar determinadas obras que pelo seu pequeno valor e urgência sejam executadas num mais curto espaço de tempo possível. Contudo o ajuste directo, deve ser sempre uma figura exepcional, levada a cabo no escrupuloso cumprimento da Lei, devidamente justificado, de forma a que não haja qualquer índicio ou suspeita de favorecimento a esta ou aquela empresa.
O Concurso Público deve ser a regra por excelência, permitindo colocar todos os agentes interessados nas mesmas condições, de livre acesso aos projectos públicos, sendo os principais critérios de escolha de uma determinada proposta as regulares e salutares regras de eficiência económica, eficácia, impactos ambientais e sociais.
Sucede assim, que sendo o ajuste directo uma figura de contratação pública exepcional, os limites monetários que permitem a sua utilização devem ser igualmente  reduzidos. Bom, até 22 de Março de 2011 eram. Com este novo Decreto Lei, os limites dispararam para valores que poderão tornar o ajuste directo, não diria a regra, mas de utilização muito mais frequente, abrindo espaço ao despesismo, favorecimento político e corrupção.
Mas o que mais me chamou atenção foi o argumento justificativo do governo. O Decreto-Lei teve como objectivo actualizar os valores limites, visto que já não eram actualizados desde 1999, tendo em conta a evolução dos preços. Desde logo este argumento pareceu-me falacioso, e como ando farto de mentiras políticas, chega de atirar areia para os olhos dos Portugueses.

Inflação média 2000 a 2010 - 11 anos 2,44




Cargo           Valor original             Valor actual              Valor político                 Diferença


Ministros     3.750.000,00              4.888.735,44            5.600.000,00               711.264,56


Director Geral 100.000,00               130.366,28               750.000,00                 619.633,72


Presidentes de Câmara 150.000,00  195.549,42               900.000,00                 704.450,58


Primeiro-Ministro 7.500.000,00       9.777.470,88           11.200.000,00             1.422.529,12


Para desmascarar o argumento do governo, recorri a uma simples formula de cálculo financeiro. Verifiquei que a taxa média de inflação de Portugal entre 2000 (ano seguinte à última actualização governamental) e 2010, portanto 11 anos foi de cerca de 2,44 %. (Dados obtidos de www.pordata.pt em 2011-03-28).
Na primeira coluna (Valor Original) temos o valor dos limites para ajuste directo que vigorou até 21 de Março de 2011. Na coluna (Valor actual) está disponibilizado o valor correcto do ajustamento directo, caso o governo não fosse mentiroso, e tivesse de facto calculado a actualização dos ajustes directos pelo critério que tinha enumerado, a evolução dos preços, cujo indicador de excelência é a taxa de inflação anual.
A coluna (valor político) significa os valores colocados no Decreto Lei 40/2011, os quais não encontro qualquer explicação, a não ser a típica irresponsabilidade dos governantes, que ao longo de mais de 35 anos têm nos conduzido, com os resultados conhecidos. A última coluna verifica-se a dimensão da mentira. E ela é enorme. Deixo ao leitor que retire as suas próprias conclusões.
Agora que se aproxima mais uma campanha eleitoral, recomeça o discurso da demagogia, dos dois maiores partidos políticos Portugueses, não esqueçam que foram estes dois partidos que ainda há dias votaram contra a igualização dos sumptuosos salários dos gestores públicos (casta) ao salário do Presidente da República. Lembrem-se disto quando forem votar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A pobreza do discurso económico sobre a Pobreza

Faço aqui um intervalo na série de comentários que estava a desenvolver sobre o texto denominado "Os Economistas aterrados".
Gostaria de escrever um pouco sobre a forma como a Economia aborda a questão da pobreza, e reflectir como alguns economistas ignoram-na nas suas diversas aparições audio visuais.
Não vou desenvolver esta matéria neste espaço, no entanto, quando finalizar a minha tese de mestrado em Economia Social, partilharei, no mesmo formato que o projecto "Economistas Aterrados", algumas partes da mesma, que aborda a pobreza de uma forma genérica, e o RSI em particular e como pano de fundo.
A pobreza é um fenómeno que envolve um conjunto alargado da população Portuguesa. Estima-se que cerca de 18% da população está numa situação de pobreza relativa. Penso que o valor poderá ser mais elevado, na medida que o critério harmonizado com a União Europeia, 60% do rendimento mediano do país é, na minha opinião, altamente discutível. Mas deixo estes assuntos para outra oportunidade.
Para já centro-me na questão da pobreza e a sua omissão como fenómeno com enorme relevância económica.
As transferências sociais são fundamentais para alcançarmos este nível de pobreza, ainda assim, demasiada, tendo em conta que sem essas transferências sociais, o valor poderia facilmente subir para cerca de 30%. 
Quando se aborda o tema da competitividade, mais e melhores empresas, mais produtividade, mais exportações, reduzir o déficit do saldo orçamental, tudo isso são questões que têm de ser necessariamente valorizadas, contudo, é díficil pedir tudo isso, sem atacar o verdadeiro grande e seminal problema de Portugal, a pobreza, nas suas diversas manifestações. Não só a pobreza material que se traduz em 18% da população.
Como se pode pedir mais competitividade, mais produtividade (que resulta de mais investimento em capital tecnológico, mas também em capital humano), quando uma parte importante da população só pensa se o dinheiro vai chegar até ao fim do mês para pagar as despesas básicas, incluindo alimentação.
Mas não é só de pobreza material que envenena Portugal e o seu potencial humano de crescimento, que vai destruindo o País.
A pobreza de espírito, e formação de uma parte dos "empresários" Portugueses, que discutem o pagamento de mais 10 euros aos trabalhadores (aumento de salário mínimo de 475 euros para 485 euros), mas quando conseguem um financiamento em condições desastrosas, pagando uma taxa de juro agiota e insuportável, calam-se, e não discutem, ou pagam à EDP, preços de energia monopolistas, minando aos poucos as PME's, permitindo aos accionistas a obtenção de elevados dividendos, a coberto de um regulador dormente, subserviente e incompetente.
A pobreza da precariedade do emprego e dos baixos salários, dos "chicos espertos" sempre à procura de contornar a legislação, desmotivam e impedem os trabalhadores a procurarem formação, a melhorarem as suas competências, a tornarem-se mais produtivos.
A pobreza da educação e literacia de alguns Portugueses, que não têm ambição de aprender mais, saber mais, ser um melhor profissional, melhorar a sua condição de vida e rendimentos, fruto de um melhor saber fazer, em vez de o fazer através de esquemas.
A pobreza política da classe política vigente, apenas preocupada com propaganda cega e senil, atribuindo vergonhosos e chorudos salários a administradores de empresas públicas, ou fundações como a fundação de Guimarães, para a Capital Europeia da Cultura.
A pobreza da distribuição dos rendimentos (Portugal é dos países mais desigual na distribuição dos rendimentos nos países da europa a 27, medido pelo índice de Gini= 36% em 2008.
Para sermos mais produtivos, e assim mais competitivos, exportarmos mais, sermos mais justos é preciso primeiro combater os vários fenómenos de pobreza que campeiam em Portugal, a começar pela pobreza material, mas sem perder de vista as outras. Não basta falar em competitividade e produtividade no vazio, elas devem estar ao alcance de toda a população.